A Páscoa e a prática dos seus sentidos

12 04 2010

“Páscoa é tempo de renovação; de celebrar a ressurreição de Jesus”.

Esta parece ser a definição mais utilizada entre os cristãos para definir o verbete Páscoa. Na prática, a data é celebrada com rituais que vão da participação em missas e cultos, reunião com familiares e amigos, até a troca de ovos de chocolate – que simbolizam o nascimento, a vida, o ressurgimento de Cristo – entre outros hábitos.

Durante a Semana Santa, na tentativa de confraternizar com 34 pacientes, entre crianças, jovens e adultos, vítimas de paralisia cerebral, do Lar Mensageiros da Luz, o Santos Futebol Clube organizou ação beneficente que doaria 640 ovos de Páscoa à instituição. Os ovos seriam entregues pelos próprios jogadores do Santos e a entidade iria vendê-los em um bazar, com o intuito de reverter a renda para manutenção da mesma. Porém, o que muitos não contavam era com a atitude adotada por alguns jogadores do time – contradizendo com os verdadeiros sentidos que a Páscoa traz e refutando a intenção solidária proposta pelo clube esportivo.

Ao chegar ao Lar Mensageiros da Luz jogadores como Robinho, Neymar e Paulo Henrique Ganso recusaram-se a entrar na instituição e, inclusive, rejeitaram a possibilidade de desembarcar do ônibus do clube, na qual permaneceram no interior batucando por duas horas. A justificativa dada fora a de que por “decisões religiosas” esses atletas preferiram não participar da ação. Como já era de se esperar, o episódio teve repercussão negativa na imprensa, até mesmo por parte dos torcedores do Santos e admiradores dos craques da bola.

Em entrevista concedida à TV Bandeirantes, os jogadores Neymar e Paulo Henrique mostraram-se arrependidos da atitude e pediram desculpas. “Conversei com o meu pai, e percebi como foi ruim a nossa postura. Por isso, temos que pedir desculpas”, afirmou Neymar, alegando que teve receio de entrar na casa espírita e não se sentir bem diante de algum ritual. “Mas há outro motivo e isso não pode ser dito aqui e tem de ficar fechado no grupo”, concluiu o atacante do peixe.

Já o camisa 7, Robinho, disse por telefone que “Neymar tinha falado demais” e procurou se justificar. “Só ao chegar soubemos que se tratava de um ambiente espírita. Cada jogador tomou a atitude que achou conveniente, e acho que a religião de cada um precisa ser respeitada. Ninguém orientou a gente para que tomássemos essa atitude. Ela foi movida pela religiosidade de cada um. Isso não tem de virar polêmica”, finalizou o atacante alvinegro.

Mas como não virar polêmica um fato com essa dimensão, se até mesmo dentro do clube existem jogadores que divergem da opinião do colega?

Comenta-se que o problema está além do que aparentemente parece ser. De acordo com informações publicadas no site do Estadão este acontecimento fora “a gota d’água para que aflorassem no Santos problemas que estão se arrastando, mas vêm sendo encobertos pelo brilhante desempenho do time” e que a recusa em participar do ato de solidariedade “teria sido uma forma de mostrar insatisfação”. A matéria do jornalista Sanches Filho ainda questiona se “os problemas, entre outros, seriam o atraso do pagamento dos direitos de imagem dos atletas? Se só Robinho estaria recebendo em dia? E o fato de o técnico Dorival Júnior não ter atendido ao pedido de não punir o atacante Madson, que chegou atrasado no treino da manhã de quinta-feira” (01/04) não serem os reais motivos para a reação dos jogadores.

Certo é que problemas sempre irão surgir, em qualquer ambiente, e reivindicar é a forma mais coesa de garantir direitos. No entanto, punir aquelas crianças e jovens deficientes que passaram o dia ansiosos aguardando a chegada dos seus ídolos do futebol não foi uma postura ética. Ao Santos Futebol Clube parabéns pela ação solidária, aos jogadores e corpo técnico que levaram um pouco de alegria a esses jovens fica aqui os meus cumprimentos, porém aos que optaram permanecer no ônibus, mas depois tiveram a humildade de reconhecer o erro cometido torço para que o episódio tenha servido de aprendizado. Contudo, aos que ignoram terem cometido a falta, que Deus em Sua infinita misericórdia os perdoe. Pois, embora a Páscoa tenha passado, a busca pela renovação de nossas práticas deve permanecer cotidianamente.





“Louvado seja o dízimo dos pastores”

17 07 2009

“Louvado seja o sagrado dízimo dos afortunados pastores das Igrejas dizimo02Evangélicas”. Essa deve ser uma das frases mais recorrentes ditas entre os usurpadores de receitas alheias que se infestaram no Brasil, quando vão contabilizar seus preciosos dízimos – aliás, equivalente a essas igrejas só mesmo o Governo com suas honorárias cargas tributárias e impostos inventados a cada ano.

Concorrentes diretas da Igreja Católica, as igrejas evangélicas, salvo raras exceções, são as maiores detentoras de bens e patrimônios do país no segmento da fé, em especial, a Universal e a Renascer em Cristo – esta última patrocinada oficialmente pelo segundo mais bem pago jogador de futebol do mundo, Kaká.

Sabe-se lá em que pilar está sustentado a abnegação aos bens materiais, que o diga minha pobre avó, de 82 anos, que há quase duas décadas doa 10% de todos os seus rendimentos para esta aliança chupa-cabras, dita igreja.

Seja por meio do dízimo obrigatório, da oferta ou através da contribuição via boleto bancário de associada que chega mensalmente à sua residência, a primeira coisa que a minha velhinha (maneira carinhosa como costumo chamá-la) faz é separar a parte que cabe à igreja. Até mesmo o dinheiro dos paninhos de prato e toalhas de mãos que ela borda para vender vão parar nos cofres dos estabelecimentos divinos. Isso para não citar a restituição do Imposto de Renda, pago no último lote, que também teve seu desfecho final em uma dessas “catedrais da fé”, que “em nome de Jesus” resultarão em facilitar aos pastores e pastoras cumprirem suas missões na Terra.

Questionada por mim sobre o porquê de doar tanto dinheiro a igreja, ela apenas me disse que “está escrito na Bíblia. É a palavra do Senhor. Quem não dá o dízimo não recebe a bênção”, como concluiu com aquele seu jeitinho sereno e humilde de ser.

Com um misto de sentimentos, entre raiva e curiosidade, fui averiguar qual passagem do “livro sagrado” constava a afirmativa da minha avó. Para minha surpresa e revolta, pois a Bíblia nada mais é do que um artigo produzido e confeccionado por homens, de acordo com os interesses da época, constava várias passagens sobre a entrega do tributo.

Só para citar alguns, dentre os 44 versículos que tratam do tema em questão:

 

Quando acabares de separar todos os dízimos da tua colheita no ano terceiro, que é o ano dos dízimos, então os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas portas, e se fartem. (Deuteronômio 26:12)

Inclua-se aí os pastores também.

 

Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. (Malaquias 3:10)

Ai de quem não der o dízimo, nenhuma graça será alcançada.

 dizimo01

 

Após consultar a Bíblia Online (www.bibliaonline.com.br) decidi, então, por a lógica em prática. Suponhamos a seguinte situação. Se uma pessoa tem renda mensal de R$ 1.000 e desses 10% vai para o dízimo, contribui com R$ 10 de oferta (pode ser qualquer outro valor) e paga R$ 30 para ser associada – sendo que este é o valor exato que um associado deve pagar – então, no ano ela contribui com R$ 1.680 para a igreja, em 20 anos a quantia doada será de R$ 33.600. Com uma boa aplicação na caderneta de poupança, com certeza, esse dinheiro geraria um ótimo rendimento.

Fico a pensar que tipo de lavagem cerebral é essa que pessoas mesmo de baixa renda, com muitas necessidades e dificuldades, entregam seu suado dinheiro aos cofres dos auto-aclamados “representantes de Deus” na Terra? Acaso esses fiéis estão tentando assegurar-lhes alguma coisa em vida ou na pós-vida? Ou será que estão acuados com alguém(ns), mesmo que de forma inconsciente?

Encarnada com espécies de ¹pastores-psicanalistas que levam milhares de pessoas à regressão de mentalidade e hábitos retrógrados, e ²pastores-mágicos que, semelhantes aos abracadabras de filmes hollywoodianos, apontam suas mãos em direção aos “manifestados” e tiram deles demônios, transportando-os sabe lá Deus para onde (se é que o próprio Deus sabe), essas empresas usurpadoras que pregam a crença no “Senhor” através da contribuição financeira mensal não passam de tiranas disfarçadas, com vistas ao enriquecimento próprio e muitas vezes ilícito.

Mas é chegado o Dia do Juízo Final e até lá quero apenas crer que Deus, em Sua infinita sabedoria, não fará vistas grossas a esse bando de sanguessugas que hei de ver barrados na porta do Reino dos Céus.

 

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[1] Que me perdoem os psicanalistas, profissionais que desenvolvem seus trabalhos de maneira séria, com o intuito de colaborar com o desenvolvimento da humanidade.

[2] Que também me perdoem os mágicos que a todos nós enche de alegria e surpresas, decorrentes das habilidades que desenvolvem ao longo da vida, para trazer-nos mais encantamento.